15.11.09


quero a sua febre decotando os meus arreios

reitero os papéis sujos, desperdiçados entupidos
como bueiros como roedores como mágoas.
levo embora o quintal que sofreu com seus braços rotos
colabados ao corpo e que não sabiam, trincavam
roíam - cerravam as cortinas e supunham fábulas.

a hora não chegou e meus joelhos vingaram-se.

os pratos terminaram sozinhos longe dos copos das traças das gavetas
a insensatez e a solidão foram reino e punhal sob as sombras
ditando a lei maior que bóia e aperta os poros e a noite.
deita e ouve o preto dos seus restos
que nunca serão lavados através das mesas das calças abertas
que só atiçam a sua língua a um gemido indefeso, isolado
já morto entre as farpas da sua primeira infância.

não encontro mais a graxa do seu bojo, o descanso, as plumas
o arco tenso. o sol se pôs sobre as esquinas e talvez venha e corra o frio.
eu não sei mais se devo estar feliz.

sobraram tantos cantos nus que engasgo e recito o fio da desistência.
mas não aprendi como e oscilo e invento a fome pelo concreto pintado
pela massa que entendo com os dedos.

a greve falha e abandono os pregos
solto os cabelos, rolo exausta de silêncio e visão.
pingo álcool alameda minério pingo vôo. retorcida solto a âncora
e libélula santifico a casa ruída.
deliro parda, volto a seu estômago e atiro ao poço a moeda:
nenhum pedido ecoa. cumpro o rito sedenta sem resposta
sem atalho sem usura. com a torre e a broca invado o cerne a convite.
dos deslizes todos eu sou o amálgama confesso
e fervilho de segredos rupestres e de estreitas fontes.

é um desejo que se desdobra
sem contusão nem volta
mesmo que não sacuda os seus umbrais.

12.11.09

eu não vou ficar
quieta e imiscível
diante da sua lápide frondosa


eu não vou
eu não fui



10.11.09


é alguma coisa a mais que se franziu em gruta.
um suspiro
que foi toda a atmosfera que ondulamos
montados e boquiabertos.
eu não expliquei não pude
não alcancei sua mão seus dedos
digitais e nicotina lá dentro em cima do céu
da boca uma palma na língua
a minha, rotulada língua de vasta ausência: sê de.
e a sua tropa que rumava para o novelo gasto
da minha entranha.
eu não vi
mas ficam expelidos os sintomas
daquilo que cai e fica no lugar. eu não vi
o que foi a procura do giro do meu pescoço
que bicou o nada:

um arrepio que perfura o vazio, que é magma
pele reflexa reverente, que chama e responde
à outra pele eletrizada mesmo que ida.

suas rugas, seus gestos escavados a tosse o malogro
o sono inequívoco
suas pistas me acometem, me ditam coisas
que boiam ausentes, vagas
é a torneira de um cansaço, não sei
mas não esqueci.

8.11.09


o que você me daria que eu já não tenha cuspido
matado aberto enfiado desabado
refugiado mais que tudo entregado os membros órgãos
falências intestinações estupores colecionado na cal dos sentidos das paredes
na crua alma, que eu não tenha sucumbido na crua alma todos os alertas e
que eu não tenha me deliciado e parido e enterrado?

o que você me tiraria que eu já não tenha ferroado
delatado morrido destruído equivocado
amado depois de tudo
e ainda no combate durante o choro e o suicídio da língua ardente e da áspide?
que eu não tenha abdicado escaldado as féculas os halos
as gaiolas
e espremido a gota bruta, desistente
resvalando no fim na demência e fumando a aurora sem gosto sem vínculo?
que eu já não tenha visto sem desmaio
e apedrejado punido uns dons prostitutos porque habitantes de fogueiras
e que eu já não tenha estuprado
e me arrependido até os ossos
e convertido os ossos, negado os ossos, fincada a carne e me deixado tingir de consequências?

e não é gigante a vida.



5.11.09

up here in my tree
i'm trading stories with the leaves...
got back my innocence, still got it...



que eu te amo, é o que você espera que eu pronuncie que eu repita que eu arda e morda intacta?
e que eu manifeste a gravidez inacabada dos nossos contornos
da nossa sombra dupla da minha alegre fome de te perdurar entre as passagens
na tessitura de te calcar o mármore a seiva e transformar tudo em fluxo
em textura em grosso manto em noite que desfia mansa em sintonia?
é essa a crise da sua reticência, do seu desdito do verbo mórbido pasmo escarpado
que não me funda mais
que não escavo mais, que não rasgo não mastigo, não sei de cor a vida?
só me dá um pouco de fôlego para suportar a devassidão das suas ruas
a falência das suas escápulas, que pedem o transtorno
a água quente sem direção das nossas correspondências
eu te enxergo e amaino o vento. me dá da umidade do seu pedido
mesmo cadavérico desmemoriado sem eco.
aí então eu creio e adoço.

3.11.09

a minha terça parte negativa colide
egressa. minha cruz
não te acata

a tua benção cai
na margem e desbota. o silêncio
catastrofisma
proclama a nódoa do atalho
dá corpo e pratica
os furos a efedrina a separação a valsa

1.11.09

fiquei exausta do gelo
não renasci os passos
para nadar no rasgo